terça-feira, 20 de abril de 2010

tentativa e erro

Já tentei, mas não me acostumo. Não sei ser periódico, metódico e prestativo, não faz parte de mim comparecer, dizer um alô, mandar recado. Minhas saudades pertencem somente à mim e não preciso espalhar para o mundo que queimo por dentro, que arde o peito e que choro, escondido. Sou aquele que chamam de “sumido”. E sumo mesmo, apesar de estar sempre no mesmo lugar. Talvez seja isso. Esse quê de ser invisível, mesmo fora do mar.

Já tentei, volto à te falar. Mas tudo que me prende me sufoca. Te contei? Eu gosto do vento, da brisa gelada coçando o nariz, dos cabelos poucos farfalhando e do silêncio do mundo. Os pássaros que cantam baixo, os grilos e cigarras com seus intermináveis luais, o vento dançando com as folhas que agora estão secas e até mesmo as lágrimas que algumas rosas choram, sempre que amanhece. E, sem faltar, claro, o barulho do mar. O som do conforto. De liberdade. Minha.

Só que, entenda, o fato de tentar, não quer dizer que consegui. Sou um humano falho de mil maneiras e não tente me encaixar em estereótipos baratos, desses que se encontram em qualquer esquina. Te pertenço, pertenço à tantos outros e sinto saudades e choro, embora não admita isso em voz alta. Até meu choro vem em silêncio e se vai, sem que ninguém perceba. Mas eu sinto saudades. De ti, dele, das saudades poucas e de algumas outras moças, tão saudosas e insondáveis e tristes sem motivo e de choro quieto, como eu.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ela

Para a moça que cala até os silêncios.

Eu sempre lhe soube, embora quisesse esquecê-la. Forjar uma inexistência, negar uma aparência e viver de fingimento forçado. Talvez tenha sido apenas fruto do ciúme, que me assolava sempre que ele tocava-lhe nome, melodioso, doce, suave. Sempre, sem falhas, o nome vinha ao vento, seja por sussurros despercebidos ou por necessidade de se fazer história, de se fazer presente. De fazê-la presente, de torná-la eterna. Nunca gostei dessa carícia com as palavras sempre que o nome dela estava no meio, desejei que ela não existisse para ele ou, talvez, ao fundo, sem me dar conta, desejava que ela fosse para mim o que era para ele.

O tempo é aliado, depois de ser vilão. Tal como a saudade pulsando em dois corações que sagram. E era assim, um escorrer de sangue pelo peito, uma agonia que não sarava nunca e um desespero crescente, fraco, paciente. As lágrimas nunca seriam capazes de sair sozinhas, mas ela estava ali, pronta para agir assim que eu permitisse — ela sempre esteve ali, para mim, eu quem não abria espaço para isso. Eu quem não a queria por perto. E, mal sabia, necessitava dela, tanto quanto ela necessitava de mim.

As palavras vieram doces e amargas. Agridoces. Uma saudade que era só minha, descritas perfeitas e suaves em palavras desconhecidas. A moça que grita, calando com o silêncio calou meu sentimento e transbordou toda a tristeza reprimida, toda a agonia esquecida. E me permiti sê-la. Respirá-la, tal como ele fazia. E vi que não era difícil lhe devotar amor, lhe devotar compaixão e lhe dar um ombro, ainda que distante, para que as lágrimas escorressem amargas, trazendo saudade à boca e aliviando o pulsar de dois corações que dançam valsa.